Rapper, MC, b-boy, grafiteiro, produtor cultural, arte-educador e fundador da Casa do Hip Hop Ceilândia, Rivas Alves partiu aos 56 anos deixando uma trajetória que atravessa música, território, formação e memória.
O Hip-hop do Distrito Federal se despede de Rivas Alves, conhecido na cena como Rivas Álibi e também como Kabala. Sua partida foi confirmada no domingo, 5 de julho de 2026, aos 56 anos, após enfrentar um câncer, conforme informações publicadas pela imprensa local.
Para quem acompanha a cultura urbana do DF, o nome de Rivas não aparece apenas como lembrança de uma fase importante do rap brasiliense. Ele pertence à base de uma história construída com voz, corpo, spray, rima, dança, produção cultural e formação de jovens. Rivas foi desses artistas que não cabem em uma definição só.
Ele esteve no microfone, no breaking, no graffiti, na organização de eventos, na educação artística e na criação de espaços para que a cultura pudesse continuar viva. Sua trajetória ajuda a contar uma parte essencial da Ceilândia e do Hip-hop do Distrito Federal. Uma história feita por pessoas que transformaram a rua em linguagem, a vivência em arte e a periferia em referência cultural.
Depoimento de Rivas à Westside
Registro em vídeo com depoimento de Rivas para a Westside. Um documento de memória para a cena Hip-hop do Distrito Federal.
Um nome formado por vários elementos
Rivas veio de uma geração que conheceu o Hip-hop antes das facilidades de hoje. Antes das plataformas, antes dos algoritmos e antes da circulação rápida de conteúdo, a cultura chegava por encontros, fitas, bailes, rodas, muros, roupas, discos, conversas e muita observação. Era preciso procurar, trocar, aprender e fazer.
Foi nesse caminho que ele se formou. Rivas não se aproximou do Hip-hop como espectador. Ele viveu a cultura por dentro. Foi rapper, MC, b-boy, grafiteiro, produtor cultural e arte-educador. Cada uma dessas frentes dizia algo sobre sua forma de enxergar o mundo.
No rap, ajudou a afirmar uma voz periférica do Distrito Federal. No breaking, fez parte de uma geração que colocou o corpo como expressão de identidade. No graffiti, levou cor, nome, símbolo e memória para suportes que iam além do papel. Na produção cultural e na educação, ajudou a abrir caminhos para que outros jovens também pudessem se reconhecer dentro da cultura.
Rivas viveu o Hip-hop como cultura completa: música, dança, graffiti, conhecimento, território e comunidade caminhando juntos.
Álibi, Ceilândia e a identidade do rap do DF
A história de Rivas também passa pelo Álibi, grupo criado ao lado de seu irmão, DJ Jamaika. Juntos, eles fizeram parte de uma geração que ajudou a dar peso, sotaque e identidade ao rap produzido no Distrito Federal.
O Álibi surgiu em um período em que o rap do DF afirmava sua própria voz. A cena local mostrava que Brasília não era apenas o centro político do país, nem apenas o Plano Piloto visto de longe. Havia uma capital marcada por Ceilândia, Taguatinga, Samambaia, Gama, Planaltina, Sobradinho e tantas outras regiões com suas próprias narrativas.
O rap feito nesses territórios carregava denúncia, fé, revolta, inteligência, sobrevivência e observação social. Não era uma cópia de outras cenas. Tinha peso próprio. Tinha realidade própria. Tinha uma forma própria de falar da rua, da família, da violência, da esperança e das contradições de viver na periferia da capital do Brasil.
Rivas esteve dentro dessa construção. Sua presença no Álibi e sua caminhada como Kabala ajudaram a fortalecer uma linhagem do rap brasiliense ligada à verdade do território, à espiritualidade da rua e à afirmação de uma identidade que não pedia licença para existir.
Rivas no Expresso Hip Hop
Episódio 01 do programa Expresso Hip Hop, com registro de Rivas cantando e representando a força da cena do Distrito Federal.
A força de uma família que marcou o rap brasiliense
Falar de Rivas também é lembrar a conexão com DJ Jamaika, seu irmão e parceiro de caminhada. Jamaika partiu em março de 2023, deixando uma marca profunda no rap nacional. Agora, pouco mais de três anos depois, o Hip-hop do DF sente novamente o peso de se despedir de um nome ligado à mesma raiz familiar, artística e territorial.
Mas Rivas não deve ser lembrado apenas pela ligação com Jamaika. Essa relação é importante, faz parte da história e carrega afeto. Ainda assim, Rivas construiu um caminho próprio. Ele foi Kabala. Foi Rivas Álibi. Foi artista visual. Foi educador. Foi produtor. Foi guardião de memória. Foi alguém que permaneceu ativo mesmo depois de ver muitos ciclos da cultura mudarem.
Sua trajetória mostra que uma cena não é feita somente por quem grava, canta ou sobe ao palco. Ela também é feita por quem organiza, ensina, registra, preserva, junta pessoas e cria lugares de encontro.
Casa do Hip Hop Ceilândia: memória com porta aberta
Nos últimos anos, uma das contribuições mais importantes de Rivas esteve ligada à Casa do Hip Hop Ceilândia/DJ Jamaika. O espaço nasceu como ponto de encontro, formação e preservação da cultura Hip-hop, reunindo artistas, educadores, jovens, produtores e pessoas comprometidas com a história da cultura urbana no DF.
A Casa representa algo maior do que uma sede física. Ela simboliza o reconhecimento de que o Hip-hop precisa de lugar, arquivo, agenda, oficina, palco, parede, memória e continuidade. Representa também uma resposta a uma pergunta antiga: onde fica guardada a história de quem construiu a cultura antes de ela ser reconhecida?
Rivas ajudou a responder essa pergunta com ação. Sua atuação na Casa do Hip Hop Ceilândia mostra um artista que não se contentou em viver apenas da própria história. Ele trabalhou para que outras histórias pudessem começar.
Esse é um legado importante. Em uma cultura marcada por muita criação e pouco registro, espaços como esse cumprem um papel decisivo. Eles impedem que a memória se perca. Eles aproximam gerações. Eles mostram para os mais novos que o Hip-hop do DF tem raiz, nome, data, imagem, voz e continuidade.
Rivas Vida Hip Hop: quando a caminhada vira acervo
Em 2023, a trajetória de Rivas ganhou forma de exposição com Rivas Vida Hip Hop, mostra que reuniu obras, peças personalizadas, roupas, telas, registros visuais e elementos de sua caminhada artística. A exposição passou por espaços importantes de Brasília e integrou um momento simbólico para a cultura urbana: as celebrações dos 50 anos do Hip-hop.
Esse reconhecimento público diz muito sobre a dimensão de sua obra. Rivas não produziu apenas músicas ou imagens isoladas. Ele construiu um acervo vivo. Sua estética estava nas telas, nos coletes, nos bonés, nas jaquetas, nos tênis, nos moletons, nas pinturas e nos documentos que ajudavam a contar uma parte da história do Hip-hop no Distrito Federal.
Na cultura de rua, muita coisa some com facilidade. Um muro é apagado. Um flyer desaparece. Uma fita se perde. Uma foto fica sem legenda. Um evento importante vira apenas lembrança oral. Quando um artista transforma sua trajetória em exposição, ele está dizendo que aquela história merece ser vista, preservada e transmitida.
Rivas compreendeu isso. Sua obra visual e sua memória pública mostram que ele tinha consciência do valor histórico daquilo que viveu.
O Hip-hop como escola, documento e território
A caminhada de Rivas também dialoga com um momento maior da cultura urbana no Distrito Federal: o reconhecimento do Hip-hop como patrimônio cultural imaterial do DF. Esse tipo de conquista não surge de uma decisão isolada. Ele é resultado de décadas de trabalho de artistas, DJs, MCs, b-boys, b-girls, grafiteiros, produtores, educadores, comunicadores e lideranças comunitárias.
Rivas pertence a essa base. Fez parte de uma geração que já trabalhava pela cultura antes dos grandes reconhecimentos, antes das homenagens institucionais e antes de muitos espaços entenderem a importância do Hip-hop.
Ele viveu uma época em que fazer cultura periférica exigia insistência. Era preciso criar os próprios meios, ocupar os próprios espaços, convencer pessoas, montar eventos, formar público, proteger a própria identidade e ainda enfrentar o preconceito contra uma linguagem nascida das ruas.
Por isso, sua trajetória não deve ser vista apenas como carreira artística. É também uma trajetória de construção social. Rivas ajudou a mostrar que Hip-hop é música, mas também é educação. É arte, mas também é pertencimento. É expressão, mas também é organização. É memória, mas também é futuro.
Um artista que deixou caminhos
A partida de Rivas toca a cena porque ele não era apenas um nome conhecido. Ele era uma presença de ligação. Ligava gerações. Ligava linguagens. Ligava música e imagem. Ligava palco e rua. Ligava lembrança e formação.
Para muitos jovens, artistas como Rivas mostram que é possível transformar vivência em criação. Para muitos artistas mais antigos, ele representa uma fase em que tudo precisava ser construído com coragem, convivência e improviso. Para a Ceilândia, ele permanece como parte de uma memória cultural que não pode ser apagada.
Seu nome carrega uma história que atravessa o Álibi, o graffiti, o breaking, a arte-educação, a Casa do Hip Hop e a afirmação da cultura periférica do Distrito Federal.
Rivas foi um artista completo porque viveu o Hip-hop como cultura completa.
O legado de Rivas continua nas ruas, nas vozes e nos muros
Toda cultura precisa cuidar de seus nomes. Não apenas quando eles partem, mas também enquanto seguem construindo. Quando uma presença como Rivas deixa o plano físico, a memória precisa ser organizada com respeito, profundidade e carinho.
Seu legado não está guardado em um só lugar. Está nas músicas que ajudou a construir. Está nas imagens que criou. Está nas rodas que fortaleceu. Está nos jovens que encontrou pelo caminho. Está nos artistas que dividiram palco, rua e ideia com ele. Está na Casa do Hip Hop Ceilândia. Está na história do Álibi. Está na lembrança de DJ Jamaika. Está na Ceilândia que viu sua arte nascer e circular.
Rivas Álibi, o Kabala, deixa uma contribuição que ultrapassa a saudade. Sua história permanece como referência para quem entende o Hip-hop como cultura de presença, atitude, memória e responsabilidade com o território.
Rivas Alves, Rivas Álibi, Kabala: seu nome segue vivo na história da cultura de rua, no rap de Brasília e na memória da Ceilândia.
Fontes consultadas pela redação: Correio Braziliense, Metrópoles, Câmara Legislativa do Distrito Federal, Rádio Nacional, Finíssimo e registros audiovisuais da Westside.
