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“Falador, linguarudo, Deus me livre / Talarico, olho grande, falso amigo, Deus me livre.” KBrum abre o novo single sem rodeio: nomeia cada presença que pesa no caminho e transforma uma expressão repetida no cotidiano em refrão de defesa. O recado é sério, mas chega com humor, balanço e a malícia de quem sabe que certas figuras são reconhecidas antes mesmo de a música terminar.
Ao lado de Gugs, o artista de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, reúne fé e ironia em “Deus Me Livre”, lançamento da Deck. A letra passa pelo falso amigo, pelo caloteiro, pelo invejoso e pelo olho grande. São problemas grandes e pequenos, daqueles que aparecem na rua, no trabalho e nas relações, tratados sem discurso comprido: a resposta cabe em três palavras.
Proteção também pode virar pista
A força da faixa está nesse movimento. KBrum e Gugs alternam provocação e alerta enquanto o refrão funciona como resposta pronta, oração curta e bordão para cantar junto. A espiritualidade aparece sem afastar a música da dança; ela entra no ritmo como limite, escolha e cuidado com quem se deixa chegar perto.
A produção assinada por Africanoise, CARLO e WARMANDO atravessa early reggae, digital reggae e dancehall. A percussão de Africanoise acrescenta o peso do samba-reggae e amplia a conversa entre Jamaica e Brasil. Baixo, tambores e vozes deixam espaço uns para os outros, fazendo a letra respirar sem perder pressão.
Essa ponte é parte do caminho de KBrum. Cofundador do coletivo Jamaicaxias, ele vem trabalhando a cultura jamaicana a partir de Duque de Caxias e ajudando a afirmar a Baixada como lugar de criação, pesquisa e circulação dessas sonoridades. O sotaque local permanece no centro mesmo quando a música atravessa outros ritmos.
“A gente conseguiu trazer isso na estética bem brasileira, bem do nosso jeitão de fazer mesmo”, resume KBrum. A frase explica o coração do single: olhar para a Jamaica, reconhecer sua escola e encontrar uma forma brasileira de tocar, escrever e responder ao cotidiano.
O caminho até “Raggaleluia”
“Deus Me Livre” chega depois de “Sal Grosso”, colaboração de KBrum com Anitta no projeto EQUILIBRIVM II. A parceria mostrou como o artista consegue circular por diferentes espaços da música pop sem abandonar as referências jamaicanas e suburbanas que sustentam seu trabalho.
O single anterior, “Pussy”, abriu outra frente dessa pesquisa ao se aproximar da energia do bouyon. Agora, KBrum muda o foco: sai da tensão sensual para falar de proteção, espiritualidade e das companhias que merecem — ou não — caminhar por perto.
As duas faixas antecipam Raggaleluia, álbum previsto para outubro. Se o título já aproxima o ragga de uma celebração de fé, “Deus Me Livre” apresenta essa ideia pela linguagem mais direta possível: um refrão para dançar, rir e manter o olho aberto.
