Foto: Fernando Mendes
Com sete faixas adicionais entre músicas e poemas, KM2 (De Luxo) leva o álbum de Ebony para um lugar ainda mais íntimo. A rapper de Queimados, na Baixada Fluminense, organiza lembranças, feridas e conquistas sem suavizar as tensões de ser uma mulher negra e periférica dentro de uma sociedade que muitas vezes tenta decidir por ela qual espaço pode ocupar.
O início com “Sangue Ruim” estabelece essa disposição. Ebony usa a poesia para encarar dor, ausência e o hábito de resolver tudo sozinha, mas também para transformar essas experiências em movimento. No material enviado à Westside, ela conta que escrevia poemas, roteiros e pequenos textos havia anos, porém tinha vergonha de mostrá-los. A abertura do disco marca a decisão de tornar essa escrita parte pública de sua obra.
O álbum também cria pausas para a palavra falada. Uma delas recupera a pergunta histórica associada à abolicionista Sojourner Truth — “E eu não sou uma mulher?” — e conecta a referência à busca de Ebony por imagens de mulheres negras capazes de sustentar identificação e reivindicação. A artista apresenta essa escolha como parte de um processo de reconhecer a própria inteligência dentro de um rap que nem sempre lhe ofereceu esse lugar.
Musicalmente, KM2 (De Luxo) atravessa rap, funk, bass, drum e MPB. “Gin com Suco de Laranja” abre uma frente romântica e sensual; “Rimo em qualquer batida” usa um coro de crianças e a cadência de um canto militar para ironizar estruturas de poder; “Dona de Casa” aparece primeiro em versão bruta e depois finalizada, deixando o processo de criação dentro da própria sequência.
A reta final passa pela locução de “Baddie Radio” até chegar a “Chefe”. Depois de uma obra marcada por notícias e memórias difíceis da Baixada Fluminense, é a própria Ebony quem anuncia a ascensão de uma jovem negra e assume para si as palavras “preta, foda, quente”. O desfecho não apaga a dor que moveu o disco; ele registra a artista tomando o controle da narrativa.
A capa acompanha essa construção. A artista plástica Hester Landim coloca Ebony adulta diante de uma pintura em que sua versão criança aparece isolada, enquanto pegadas vermelhas sugerem memória, dor e percurso. Fotografada por Fernando Mendes, a cena traduz a ideia central da edição: olhar para o que ficou marcado, dar acabamento à obra e seguir adiante com a própria mão.
