Arte da capa: Sobre o Vazio aka Servo
O “nós” de Babylon By Nós aponta para quem divide o peso da cidade e para as amarras que essa caminhada deixa pelo corpo.
Matheus Coringa e Digmanybeats lançaram o EP em 11 de setembro, pela Sujoground, com distribuição da Symphonic. Em cinco faixas, os dois juntam seis vozes do rap independente para atravessar deslocamento, trabalho, dinheiro, fé, violência e sobrevivência sem separar essas experiências do lugar onde elas acontecem.
O “nós” que junta e aperta
O título conversa diretamente com Babylon By Gus, álbum de Black Alien. A troca de “Gus” por “Nós” abre o foco: sai a experiência de uma pessoa só e entra uma Babilônia vivida em conjunto. A palavra também carrega os nós que ligam pessoas, territórios e memórias — e os que dificultam o caminho.
Nos beats, Digmany trabalha a partir do boombap, mas não fica preso a uma moldura nostálgica. Baterias orgânicas, metais — com o trompete aparecendo em diferentes momentos — e referências de jazz fusion, rock progressivo e new age criam um chão vivo para as rimas. A produção foi construída no Digmanybeats Studio, onde também foram captadas as vozes.
“Nos instrumentais de Babylon, é nítida a escolha por baterias orgânicas, com um swing humano. Transito por melodias que conectam a espiritualidade ao ser físico”, explica Digmanybeats.
Cinco faixas, vários territórios
A abertura, A Pista Tá Salgada, coloca sirenes, dinheiro, violência e proteção espiritual na mesma rua. O banho de sal e a presença dos Orixás entram como cuidado diante de uma rotina que cobra atenção o tempo todo.
Matheus Coringa em apresentação em Manaus, março de 2026. Foto: bxrgesavage
Em Sem Bens no Meu Nome, Bella V transforma o deslocamento do Amapá para São Paulo em parte da conversa. Matheus responde a partir da própria rota: nascido em Salvador, criado entre Manaus e Rio de Janeiro e hoje vivendo em Santo André, ele escreve sobre chegar a uma cidade nova sem apagar os lugares que vieram antes.
Albatroz recebe Marci VSR, de São José dos Campos, e aproxima imagens cósmicas e espirituais das contas, do trabalho e da sobrevivência na arte. Malícia reúne Ravi Lobo e ALFÃO, de Salvador, em uma faixa onde família, polícia, violência e abandono institucional atravessam diferentes gerações do rap da cidade.
Caos fecha o EP com IKU THE KID, da Baixada Fluminense, e YUNG EXU, da Baixada Santista. Literatura, cinema, religião e cultura pop aparecem em fragmentos que reproduzem a pressão e a desordem da vida urbana. O repertório tem linguagem explícita e não tenta suavizar as imagens escolhidas pelos artistas.
Digmanybeats. Foto de divulgação
Experiência colocada em circulação
Matheus Coringa atua desde 2011 como rapper, produtor e compositor, além de conduzir a Sujoground. Sua trajetória passa por Salvador, Manaus, Rio de Janeiro e Grande São Paulo, circulação que ajuda a explicar por que o deslocamento aparece no disco como experiência concreta, e não como paisagem distante.
Digmanybeats, nome artístico de Diego Many, começou no rap em 1995, passou por grupos, pesquisa musical, discotecagem e pela ligação entre skate e hip-hop antes de se dedicar exclusivamente à produção, em 2016. Em Babylon By Nós, essa escuta de décadas aparece menos como vitrine de referências e mais como base para vozes de cidades e gerações diferentes dividirem a mesma obra.
Faixas de Babylon By Nós
- A Pista Tá Salgada
- Sem Bens no Meu Nome — feat. Bella V
- Albatroz — feat. Marci VSR
- Malícia — feat. Ravi Lobo & ALFÃO
- Caos — feat. IKU THE KID & YUNG EXU
Créditos
Produção musical, beats, arranjos e captação de vozes: Digmanybeats. Letras e vozes: Matheus Coringa e artistas convidados. Mixagem e masterização: Matheus Antunes. Produção executiva e A&R: Matheus Coringa. Capa e contracapa: Sobre o Vazio aka Servo. Lançamento: Sujoground, com distribuição da Symphonic.
