Na Zona Norte do Rio de Janeiro, o home studio de Igor Babidi virou ponto de encontro, laboratório sonoro e agora também o centro narrativo de Tape do Azulão. O projeto reúne 13 artistas em torno de uma produção que parte do rap, mas se permite circular por MPB, samba, funk, jazz, soul e experimentações eletrônicas.
Babidi trabalha há quase uma década nos bastidores do hip-hop fluminense. Aos 28 anos, o produtor traduz no novo disco uma rede construída entre o underground e trabalhos de maior alcance. Em vez de organizar o álbum ao redor de uma história rígida, ele registra a convivência que se formou no estúdio entre agosto de 2024 e agosto de 2026.
O nome Azulão tem duas camadas. É como o espaço de gravação ficou conhecido entre os artistas que frequentam a casa, mas também funciona como referência ao cantor e compositor pernambucano Azulão, de Caruaru. O encontro dessas ideias ajuda a explicar um trabalho que aproxima a linguagem do boom-bap de uma pesquisa sobre música popular brasileira.
A lista de participantes inclui Claudjin, Servo, Janvi, Samuka, Eli-Z, Yung Vegan, Athos, Rafinha no Beat, Rare Gnxt, Barba Negra, Lis MC, Conde e Seu Gerê, pai de Babidi. A presença de Seu Gerê reforça uma dimensão familiar que já aparecia em Depois Que A Água Baixou, álbum lançado em vinil pelo produtor em 2025.
As 14 faixas funcionam como registros de sessões e afinidades. Há áudios de amigos pedindo para chegar ao estúdio, baixos tocados no improviso, recortes de documentário e músicas que entraram no projeto porque sobreviveram ao teste da pista. Essa lógica espontânea dá unidade a uma tape que prefere mostrar o processo em movimento a esconder suas costuras.
A identidade visual segue o mesmo caminho artesanal. A capa nasceu de uma fotografia feita por Babidi com o celular, ampliando a textura de uma placa de isolamento acústico do estúdio. O detalhe vira metáfora para uma obra construída pelo entrelaçamento de vozes, referências e encontros casuais.
Com Tape do Azulão, Babidi não apresenta apenas uma coleção de beats. O produtor documenta o papel dos estúdios independentes como espaços de formação, troca e inovação no rap carioca — lugares onde uma visita sem roteiro pode virar faixa e onde a amizade também atua como método de produção.